terça-feira, 27 de abril de 2010

Ausência


"Por muito tempo achei que ausência era falta.
E lastimava, ignorante, a falta.
Hoje não a lastimo.
Não há falta na ausência.
A ausência é um estar em mim.
E sinto-a, branca, tão pegada, aconchegada nos meus braços,
que rio e danço e invento exclamações alegres,
porque ausência assimilada,
ninguém a rouba mais de mim."

Carlos Drummond de Andrade

Intinerário

"Não quero viver como uma planta que engasga e não diz a sua flor. Como um pássaro que mantém os pés atados a um visgo imaginário. Como um texto que tece centenas de parágrafos sem dar o recado pretendido. Que eu saiba fazer os meus sonhos frutificarem a sua música. Que eu não me especialize em desculpas que me desviem dos meus prazeres. Que eu consiga derreter as grades de cera que me afastam da minha vontade. Que a cada manhã, ao acordar, eu desperte um pouco mais para o que verdadeiramente me interessa.

Não quero olhar para trás, lá na frente, e descobrir quilômetros de terreno baldio que eu não soube cultivar. Calhamaços de páginas em branco à espera de uma história que se parecesse comigo. Não quero perceber que, embora desejasse grande, amei pequeno. Que deixei escapulir as oportunidades capazes de bordar mais alegrias na minha vida. Que me atolei na areia movediça do tédio. Que a quantidade de energia desperdiçada com tantas tolices poderia ter sido útil para levar luz a algumas sombras, a começar pelas minhas.
Que eu saiba as minhas asas, ainda que com medo. Que, ainda que com medo, eu avance. Que eu não me encabule jamais por sentir ternura. Que eu me enamore com a pureza das almas que vivem cada encontro com os tons mais contentes da sua caixa de lápis de cor. Que o Deus que brinca em mim convide para brincar o Deus que mora nas pessoas. Que eu tenha delicadeza para acolher aqueles que entrarem na roda e sabedoria para abençoar aqueles que dela se retirarem.
Que, durante a viagem, eu possa saborear paisagens já contempladas com olhos admirados de quem se encanta pela primeira vez. Que, diante de cada beleza, o meu olhar inaugure detalhes, ângulos, leituras, que passaram despercebidos no olhar anterior. Que eu me conceda a bênção de ter olhos que não se fechem ao espetáculo precioso da natureza, há milênios em cartaz, com ou sem plateia. Quero aprender a ser cada vez mais maleável comigo e com os outros. Desapertar a rigidez. Rir mais vezes a partir do coração.
Quero ter cuidado para não soltar a minha mão da mão da generosidade, durante o percurso. E, quando soltá-la, pelas distrações causadas pelo egoísmo, quero ter a atenção para sincronizar o meu passo com o dela de novo. Quero ser respeitosa com as limitações alheias e me recordar mais vezes o quanto é trabalhoso amadurecer. Quero aprender a converter toda a energia disponível às mudanças que me são necessárias, em vez de empregá-la no julgamento das outras pessoas.
Que as dificuldades que eu experimentar ao longo da jornada não me roubem a capacidade de encanto. A coragem para me aproximar, um pouquinho mais a cada dia, da realização de cada sonho que me move. A ideia de que a minha vida possa somar no mundo, de alguma forma. A intenção de não morrer como uma planta que engasgou e não disse a sua flor. "

Ana Jácomo

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Mulher de 30


Cibele Santos

Garfield






Jim Davis

Frases Soltas


Caio Fernando de Abreu

O Encontro

"Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar, mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um. E aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.

- Você está morando por aqui?

- Na casa do papai.

Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho – enlatados, bolachas, muitas garrafas -, tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado. Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!” Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que lhe dissera. E ela o chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.

- E você? – perguntou ela, ainda sorrindo.

Continuava bonita.

- Tenho um apartamento aqui perto.

Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro reencontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que é que ela estaria fazendo ali àquela hora?

- Você sempre faz compras de madrugada?

Meu Deus, pensou, será que ela vai tomar a pergunta como ironia? Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.
- Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.

- Curioso, eu também tenho gente lá em casa e vim comprar bebidas, patê, essas coisas.
- Gozado.
Ela dissera uns amigos. Seria alguém do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca. E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para a casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. Ou será uma amiga? Afinal ele ainda era moço… deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante. Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que eu fiquei engasgado ao vê-la, pensa que eu sinto falta dela. Mas não vai ter essa satisfação, não senhora.
- Meu estoque de bebidas não dura muito. Tem sempre gente lá em casa – disse ele.
- Lá em casa também é uma festa atrás da outra.
- Você sempre gostou de festas.
- E você, não.
- A gente muda, né? Muda de hábitos…
- Tou vendo.
- Você não me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.
Ela, ainda sorrindo:
- Que Deus me livre.
Os dois riram. Era um encontro informal. Durante seis anos tinham se amado muito. Não podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: esses dois, se um morrer o outro se suieida. Os amigos não sabiam que havia sempre uma ameaça de malentendido com eles. Eles se amavam, mas não se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte porque substituía o entendimento, tinha função acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele não queria dizer nada. Passaram juntos pela caixa, ele não se ofereceu para pagar, afinal era com a pensão que ele Ihe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar pela mãe dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do ácido úrico não voltara, começaram os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois se despediram sem dizer mais nada. Quando ela chegou em casa ainda ouviu a mãe resmungar, da cama, que ela precisava acabar com aquela história de fazer as compras de madrugada. Que ela precisava ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela não disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir. Quando ele chegou ao apartamento, abriu uma lata de patê, o pacote de bolachas, abriu o vinho português, ficou bebendo e comendo sozinho, até ter sono e aí foi dormir.
Aquele farsante, pensou ela, antes de dormir.
Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir."


Luis Fernando Veríssimo

O Contrato

"Combinamos que não era amor. Escapou ali um abraço no meio do escuro. Mas aquilo ali foi sono, não sei o que foi aquilo. Foi a inércia do amor que está no ar mas não necessariamente dentro de nós.

A gente foi ao cinema, coisa que namorados fazem. Mas amigos fazem também, não? Somos amigos. Escapou ali um beijo na orelha e uma mão que quis esquentar a outra. Mas a gente correu pra fazer piadinha sexual disso, como sempre.
Aí teve aquela cena também. De quando eu fui te dar tchau só com a manta branca e o cabelo todo bagunçado. E você olhou do elevador e me perguntou: não to esquecendo nada? E eu quis gritar: tá, tá esquecendo de mim. E você depois perguntou: não tem nada meu aí? E eu quis gritar: tem, tem eu. Eu sempre fui sua. Eu já era sua antes mesmo de saber que você um dia não ia me querer.
Mas a gente combinou que não era amor. Você abriu minha água com gás predileta e meu sabonete de manteiga de cacau. E fuçou todas as minhas gavetas enquanto eu tomava banho. E cheirou meu travesseiro pra saber se ainda tinha seu cheiro. Ou pra tentar lembrar meu cheiro e ver se ele ainda te deixa sem vontade de ir embora. Mas ainda assim, não somos íntimos. Nada disso. Só estamos aqui, reunidos nesse momento, porque temos duas coisas muito simples em comum: nada melhor pra fazer. Só isso. É o que está no contrato. E eu assino embaixo. Melhor assim. Muito melhor assim. Tô super bem com tudo isso. Nossa, nunca estive melhor. Mas não faz isso. Não me olha assim e diz que vai refazer o contrato. Não faz o mundo inteiro brilhar mais porque você é bobo. Não faz o mundo inteiro ficar pequeno só porque o seu chapéu é muito legal. Não deixa eu assim, deslizando pelas paredes do chuveiro de tanto rir porque seu cabelo fica ridículo molhado. Não faz a piada do vampiro só porque você achou que eu estava em dias estranhos. Não transforma assim o mundo em um lugar mais fácil e melhor de se viver. Não faz eu ser assim tão absurdamente feliz só porque eu tenho certeza absoluta que nenhum segundo ao seu lado é por acaso.
Combinamos que não era amor e realmente não é. Mas esse algo que é, é realmente muito libertador. Porque quando você está aqui, ou até mesmo na sua ausência, o resto todo vira uma grande comédia. E aquele cara mais novo, e aquele outro mais velho, e aquele outro que escreve, e aquele outro que faz filme, e aquele outro divertido, e aquele outro da festa, e aquele outro amigo daquele outro. E todos aqueles outros viram formiguinhas de nariz vermelho. E eu tenho vontade de ligar pra todos eles e falar: putz, cara, e você acha mesmo que eu gostei de você? Coitado.
Adoro como o mundo fica coitado, fica quase, fica de mentira, quando não é você. Porque esses coitados todos só serviram pra me lembrar o quão sagrado é não querer tomar banho depois. O quão sagrado é ser absurdamente feliz mesmo sabendo a dor que vem depois. O quão sagrado é ver pureza em tudo o que você faz, ainda que você faça tudo sendo um grande safado. O quão sagrado é abrir mão de evoluir só porque andar pra trás é poder cruzar com você de novo.
Não é amor não. É mais que isso, é mais que amor. Porque pra te amar mais, eu tenho que te amar menos. Porque pra morrer de amor por você, eu tive que não morrer. Porque pra ter você por perto um pouco, eu tive que não querer mais ter você por perto pra sempre.
E eu soquei meu coração até ele diminuir. Só pra você nunca se assustar com o tamanho. E eu tive que me fantasiar de puta, só pra ter você aqui dentro sem medo. Medo de destruir mais uma vez esse amor tão santo, tão virgem. E eu vou continuar me fantasiando de não amor, só pra você poder me vestir e sair por aí com sua casca de não amor.
E eu vou rir quando você me contar das suas meninas, e eu vou continuar dizendo “bonito carro, boa balada, boa idéia, bonita cor, bonito sapato”. E eu vou continuar sendo só daqui pra fora. Porque no nosso contrato, tomamos cuidado em escrever com letras maiúsculas: não existe ninguém aqui dentro.
Mas quando, de vez em quando, o seu ninguém colocar ali, meio sem querer, a mão no meu joelho, só para me enganar que você é meu dono. Só para enganar o cara da mesa ao lado que você é meu dono. Eu vou deixar. Vai que um dia você acredita."
 
Tati Bernardi

Romântica pra cacete

"Nem todo dia tem Sol, nem toda sobremesa é cheese cake e nem toda relação homem e mulher é romance.

E você vai fazer o quê?
Vai se matar por causa do cinza acima da sua cabeça? Vai tremer hipoglicêmica e carente porque só sobrou torta holandesa? Vai se manter virgem e intacta até aparecer o homem que vai te dar uma casa com cerquinhas brancas, cachorrinhos e bebês?
Claro que não, você vai viver a vida, curtindo o que ela tem de melhor. E o que um bonitão que só quer te comer pode ter de melhor? Bom, eu poderia fazer uma lista. Mas a droga do romance estraga tudo isso, a droga dos filmes românticos nos enganam como as propagandas de cerveja que enchem de gostosas os babacas segurando um copinho.
Por que raios a gente tem de romantizar qualquer demonstração de carinho de um homem se na maioria dos casos eles só querem nos comer? E por que ficamos tão putas se eles apenas nos comem e caem fora?
Quem disse que eles são obrigados a nos amar eternamente só porque conheceram de perto a nossa beleza interior? E, finalmente: que mal há em sermos gostosas e os homens quererem nos comer? Por que isso parece ofensivo? Por que nos sentimos usadas se ambos estão lá de livre e espontânea vontade?
Isso é herança das mulheres pudicas, sonhadoras e donas de casa do século passado ou a célula do romance vai eternamente se multipilcar e passar de geração em geração através das mulheres?
Eu tento, juro que tento. Mas a droga do romance não me deixa em paz.
É uma praga.
Conscientemente eu sei que nem todos os caras querem namorar comigo, e mais conscientemente ainda eu sei que eu também não quero namorar com a maioria deles. Mas lá dentro fica a dúvida: será que fui usada?
Da onde vem esse sentimento fraco, submisso, antigo, arcaico, pobre e idiota de que numa relação sexual o homem é o dominante que come e a mulher a coitada que é comida? E por que se ele te tratou tão bem, com tanto carinho e respeito, só quis te comer e caiu fora? Precisava se dar tanto trabalho?
A vida é complicada. E a vida é complicada porque nós mulheres romantizamos tudo, ou quase tudo. Ou justamente o que não deveríamos.
A gente faz planos mesmo em cima dos silêncios deles. A gente vê beleza em cada sumiço. A gente vê olhares de amor no mais puro olhar de tesão. A gente acaba de trepar e é batata: deita no peito deles!
Ah, o romance! Mulher que é mulher não consegue fugir de um.
Você vai para o banho super senhora de si, mas enquanto a água escorre, você fica na dúvida entre se ele vai ligar no dia seguinte e o nome dos filhos. Será que ele vai ter os olhos do pai?
Eu cansei de ser assim, por que não consigo ver os homens como diversão se eles conseguem tão facilmente nos ver assim? Por que não posso aceitar que nem tudo é romance?
Por que a droga da chuva me lembra todas as vezes que eu voltei para casa sonhando e no dia seguinte me deparei com a frieza do dia seguinte?
Aonde está você pelo amor de Deus! Aonde está você? Não vê que estou cansada de pertencer a todos e não ser de ninguém? Não vê que minha devolução me enfraquece cada vez mais em me entregar?
Não vê que na loucura de te encontrar não meço as entregas? E elas nunca são entregas porque eles nunca são você.
Porque comecei este texto tão bem e mais uma vez esqueci de ser a mulher moderna que eu tanto gostaria de ser para lembrar a mulher romântica que espera por você a cada esquina, a cada decote, a cada riso nervoso que solto em forma de grito à espera do seu socorro.
Eu vou continuar vendo você em todos esses crápulas que fingem ser você para vulgarizar o meu amor. Eu vou continuar cheirando você em todos esses suores fugazes que me querem num conto pequeno. Eu vou continuar lendo a nossa história em contos pequenos.
Cadê você que some a cada som que não me procura? Cadê você que parece ser e nunca é porque desaparece no cansaço das relações?
O meu amor acaba por todos, a minha espera cansa por todos, a minha raiva ameniza por todos. Mas a minha fé por você cresce a cada dia.
Eu posso transar no primeiro encontro, eu posso transar por transar. Eu posso trepar. Eu posso te encontrar num flat na hora do almoço para uma rapidinha. Eu posso reclinar o banco do meu carro e mandar ver. Eu posso deixar você não me beijar na boca. Eu posso aceitar que você nunca me leve de mãos dadas a um cinema. Eu posso ser uma noite e nada demais. Eu posso ser um banheiro e nada mais. Eu posso ser nada mais.
Mas eu nunca, em nenhum momento, deixo de romantizar a vida, cada segundo, por mais podre que seja, dela. Eu nunca deixo de procurar você. Eu nunca deixo de acreditar que você exista, e eu nunca deixo de acreditar que você faz o mesmo a minha espera."

Tati Bernardi

Sua Menina

"E é com leveza sublime e felicidade religiosa, de quem muito acreditou num milagre, que olho nos seus olhos hoje em dia. É com maquiagem adulta e salto fino de mulher que depois de tantos anos fui virar sua menina. É estranho, e delicado, e prazeroso, e engraçado. É tão intimista e complusivo ter você, finalmente, a meio centímetro de mim.

E dói a barriga, dói a cabeça, dói o peito. Dói, dói, dói, dói tudo a cada vez que eu tento pensar em você. Dá um nó no estômago de pensar que o mundo deu tantas voltas e foi parar de novo bem aqui, nesse ponto mal acabado da nossa história. Essa história louca que não tinha tido um fim pelo simples fato de que nunca tinha tido um começo.
E o começo começou bem no começo do meu desprendimento. Finalmente eu pude ver o final das coisas que finalizavam qualquer hipótese de um dia haver um final feliz com você. Porque eu era criança, eu era lilás, eu sorria de peito aberto pro mundo. E você era marmanjo, era irmão mais velho, era primo postiço achando que meu amor era adolescente. Eu sentava no chão da escola e olhava o jeito que você olhava todas aquelas meninas que nunca me olharam. Você sentava do meu lado e fraternalmente me abraçava. O meu coração explodia, mas minha alma nunca gozava.
E aí você namorou, e namorou, e namorou… E eu sempre fiquei namorando a hipótese de um dia namorar você. Procurando em todos os namorados que tive a delicadeza que era sua, o carinho fraterno que moveu a minha admiração adolescente durante todos aqueles anos confusos de auto-conhecimento e baixa auto-estima. Por mais distante que fosse a minha lembrança, nada nunca arrancou do meu coração calejado a infância cor-de-rosa que eu tive com você.
Pode parecer estranho, e meloso, e piegas. Pode parecer mentira, e exagero, e perfeição demais. Pode parecer carência, e ilusão, e passado. Pode parecer rápido, e confuso, e futuro. Pode parecer tanta coisa junta que pra mim já não faz diferença. Pode parecer tanta coisa e todas essas coisas serem mentiras separadas que formam a minha verdade universal.
E você pode ser de uma delas, você pode ser só dela, você pode ser só seu. Nós podemos ser o que nós quisermos e podemos continuar sendo um do outro. Eu posso escrever um livro, virar redatora, virar gente grande de verdade. Nós podemos ser o que sempre fomos e só nós dois sempre soubemos. Você pode ser o doutor para todos os outros, mas pra mim você nunca vai deixar de ser o moleque que me arranca o bico da cara e me tira a pose do corpo. Nós podemos fingir que não estamos tocados e seguirmos nossas vidas paralelamente só pra não variar o nosso conhecimento mútuo. Mas ainda que isso aconteça nada tira da minha cabeça que valeu a pena esperar esse tanto, e que, se fosse preciso, eu esperaria tudo de novo."


Rani Ghazzaoui

O que eu quero de você

“Quero acordar do seu lado num domingo de manhã e saber que não temos hora para sair da cama. E, depois, ir tomar café na padaria e ler o jornal com você. Quero ouvir você me contar sobre o trabalho e falar detalhadamente de pessoas que eu não conheço, e nem vou conhecer, como se fossem meus velhos amigos. Quero ver você me olhar entre um gole de café e outro, sem nada para dizer, e apenas sorrir antes de voltar a folhar o caderno de cultura. Quero a sua mão no meu cabelo, dentro do carro, no caminho do seu apartamento.

Quero deitar no sofá e ver você cuidar das plantas, escolher a playlist no ipod e dobrar, daquele seu jeito metódico e perfeccionista, as roupas esquecidas em cima da cama. E que, sem mais nem menos, você desista da arrumação, me jogue sobre a bagunça, me beije e me abrace como nunca fez antes com outra pessoa. E que pergunte se eu quero ver um DVD mais tarde. Quero tomar uma taça de vinho no fim do dia e deitar do seu lado na rede, olhando a lua e ouvindo você me contar histórias do passado. Quero escutar você falar do futuro e sonhar com minha imagem nele, mesmo sabendo que eu provavelmente não estarei lá. Quero que você ignore a improbabilidade da nossa jornada e fale da casa que teremos no campo. Quero que você a descreva em detalhes, que fale do jardim que construiremos, e dos cachorros que compraremos. E que faça tudo isso enquanto passa a mão nas minhas costas e me beija o rosto. Quero que você nunca perca de vista a música da sua existência, e que me prometa ter entendido que a felicidade não é um destino, mas a viagem. E que, por isso, teremos sido felizes pelos vários domingos na cama e pelos sonhos que comparilhamos enquanto olhávamos a lua. Que você acredite que não me deve nada simplesmente porque os amores mais puros não entendem dívida, nem mágoa, nem arrependimento. Então, que não se arrependa. Da gente. Do que fomos. De tudo o que vivemos. Que você me guarde na memória, mais do que nas fotos. Que termine com a sensação de ter me degustado por completo, mas como quem sai da mesa antes da sobremesa: com a impressão que poderia ter se fartado um pouco mais. E que, até o último dia da sua vida, você espalhe delicadamente a nossa história, para poucos ouvintes, como se ela tivesse sido a mais bela história de amor da sua vida. E que uma parte de você acredite que ela foi, de fato, a mais bela história de amor da sua vida. Que você nunca mais deixe de pensar em mim quando for a Londres, escutar Dream’ Bout Me ou ler Nick Hornby. E, por fim, que você continue a dançar na sala. Para sempre. Mesmo quando eu não estiver mais olhando.”


Milly Lacombe

Regra três

"Tantas você fez que ela cansou

Porque você, rapaz
Abusou da regra três
Onde menos vale mais


Da primeira vez ela chorou
Mas resolveu ficar
É que os momentos felizes
Tinham deixado raízes no seu penar
Depois perdeu a esperança
Porque o perdão também cansa de perdoar

Tem sempre o dia em que a casa cai
Pois vai curtir seu deserto, vai.
Mas deixe a lâmpada acesa
Se algum dia a tristeza quiser entrar
E uma bebida por perto
Porque você pode estar certo que vai chorar"


Vinícius de Moraes

Seu Sorriso Derretia Satélites


"Desta janela encoberta de neblina

Avisto seus brilhos solares atravessando a rua
Escondendo das lentes ofuscantes do sucesso
Seus passos decididos partiam em rotas inexistentes

Por um segundo, senti o bater ritmado do seu coração parar.
Como se o mundo parasse, se o ar faltasse.
Instantaneamente o universo retrocedeu duas décadas de evolução
Depois acelerou tão ferozmente que estrelas colidiram
Escuridão silenciosa fez em seu breve penar

Deste labirinto tortuoso que descrevo meus dias de exílio.
Observo, assustado, o correr natural de seus dias simples.
Como a um terremoto seus passos chocam com astros distraídos.
Destruindo o pouco de paz existente nos cosmos
Volte!

Por um breve instante, minha vida misturou-se com a sua.
Meus tristes relatos, observados com minhas vistas cansadas de esperar
a paz roubada, no instante que colidiu sua rota em meus dias cinzas
Os deuses festejaram a descoberta de uma constelação.


Deste quadro abstrato que minhas retinas incansavelmente entorpecem
Procuro vestígios palpáveis para reencontrar seus braços
Eu, vagando entre o real e o imaginário, suspiro a cada sonho.
Contrabandeando sorrisos puros a cristalizar nostalgicamente a vida


Desta caverna sombria a qual observo tudo contra a luz
Vejo-te flutuar pelo salão principal, deslumbrante e bela.
Ignorando as luzes ofuscantes, vejo apenas seus olhos brilhando,
no escuro opaco, reluzente luas prateadas em noites de euforia
Seu sorriso derretia satélites e corações gelados."

Caio Fernando Abreu

domingo, 25 de abril de 2010

Frases Soltas


Caio Fernando de Abreu

Garfield


Jim Davis

Mulher de 30


Cibele Santos

sábado, 24 de abril de 2010

Meu Perfil

"Eu nunca fui uma moça bem-comportada. Pudera, nunca tive vocação pra alegria tímida, pra paixão sem orgasmos múltiplos ou pro amor mal-resolvido sem soluços.

Eu quero da vida o que ela tem de cru e de belo e não estou aqui pra que vocês gostem de mim, mas pra aprender a gostar de cada detalhe que tenho e seduzir somente o que me acrescenta.
Tenho uma relação de amor com a poesia e gosto de descascá-la até a fratura exposta da palavra. A palavra é meu inferno e minha paz.
Sou dramática, intensa, transitória e tenho uma alegria em mim que quase me deixa exausta. Eu sei sorrir com os olhos e gargalhar com o corpo todo. Eu sei chorar toda encolhida abraçando as pernas. Por isso, não me venha com meios-termos, com mais ou menos ou qualquer coisa. Venha a mim com corpo, alma, vísceras, tripas e falta de ar....
Eu acredito é em suspiros, mãos massageando o peito ofegante de saudades intermináveis, em alegrias explosivas, em olhares faiscantes, em sorrisos com os olhos, em abraços que trazem pra vida da gente. Acredito em coisas sinceramente compartilhadas. Em gente que fala tocando no outro de alguma forma, no toque mesmo, na voz ou no conteúdo.
Eu acredito em profundidades.
E tenho medo de altura, mas não evito meus abismos:
são eles que me dão a dimensão do que sou."

Marla de Queiroz

Palco

"Minha cabeça é uma peça de teatro. Há personagens, conflitos, algumas cenas marcantes... Às vezes me atrevo a dirigir e tomo controle da situação, escolho protagonizar minha própria história e vivo sem limites. Mas quando as atrizes se revoltam nos bastidores, retomam seus papéis. Deixam-me de lado, se expõem como bem desejam. Cheias de cenas vulgares, dramáticas, ridículas. São meninas cheias de vontades e nem consultam a dona da peça para saber se podem realizar suas teimosias.

Eu confesso: perco o controle, perco a vontade de controlar. Aceito o dia-a-dia e a rotina. Aceito ser movida pela minha mente que já não se conforma mais com as matinês. Todos os dias, todas as horas. Lembro e esqueço que devo ser solta para me impor. Cansei de só ocupar espaço sem existir. Tento me fazer acreditar que meu natural agrada mais do que as personagens, mas na prática a história é outra. Ao invés de surpreender a plateia à cada novo espetáculo, repito as falas decoradas sem improvisar nem uma vírgula. Ensaio sorrisos cheios de significado, mas acabo estática de novo.
Quem vai vencer? Quem é o vilão e quem é o mocinho dessa história? Quem vai se sobressair nessa luta por comando? Eu nunca acreditei em bem contra o mal. Ninguém é muito certo ou muito errado e a essa representação exacerbada chega a me revoltar. Eu não sei se eu devo ganhar essa batalha, não sei se tenho condições, se mereço assumir a direção. Talvez essas meninas medíocres aqui dentro sejam mais eu do que eu mesma. Dá pra entender onde eu quero chegar? Esse meu lado consciente, esse momento de sobriedade não é maioria em mim. Que poder tenho sobre os votos de uma população gigantesca de personalidades, todas unidas contra uma só - contra mim?
Meus segundos de lucidez estão chegando ao fim. A cortina se abre, as conversas e as luzes diminuem. Eu me rendo. Se tudo está errado, assim permanecerá. Se este script não me satisfaz, ninguém mais tem que saber. Mais um dia se passou sem que eu exigisse meus direitos. Habito, mas não comando. Sou inquilina de mim mesma e essa prisão é tudo."

Verônica H.

Tu seras la historia de mi vida

"Todo drama é bem vindo: incorpore um nome duplo, assuma a lágrima recorrente nos cantos dos olhos, mantenha a testa enrugada e o choro preso na garganta. Fale o que está engasgado, de preferência para toda a vizinhança, na porta de casa e aos gritos. Mas se resolver guardar sentimentos, fale sozinha: conte para o espelho todas as suas aflições de vida sofrida. Desconfie sempre do seu amante, que é também amante de outra, que tem ainda uma família para criar e não assume a tão bela felicidade de vocês. Ele prometeu, sim, mas no fundo você sabe que esse romance não dará em nada e só restará aquele amigo feinho e gago que faz tudo por você.

Amores platônicos, incertezas, angústias, vontades de parar de andar enquanto estou atravessando a rua, medos de me jogar sem querer do viaduto... Muito mexicana essa minha vida, muita intensidade, muito momento, sobra pouco pra amanhã. O que vem depois só me interessa depois.
Tu seras la historia de mi vida, hoje, agora. Eu te amo pra sempre até o dia escurecer. Te quero inteiro pela metade e sou eternamente sua em nossas curtas horas. Complete-me assim, sem dizer que sim. Se você se apaixonar, vou ter que sumir. Se disser que me quer, acaba o desafio. Assuma a bagunça que eu sou sem tentar me arrumar, não serei sua, não serei séria, não estarei sóbria. Se eu disser que te amo, pode ter certeza que é mentira. Mal consigo me amar, quanto mais amar alguém que não é o que eu espero.
Muito mexicana. Preciso de salsa, samba fossa já não me preenche mais."

Verônica H

Como fugir dos seus problemas

"As pessoas dizem que não adianta você sair de um lugar achando que você vai se livrar dos seus problemas. Porque problema são coisas grudentas, que vão com você para qualquer lugar. Mas, de vez em quando, não custa tentar. Vai que algum problema, no meio do caminho, se perde? Além do mais, fugir dos problemas tem uma vantagem. Mesmo que seus problemas estejam com você, ocupando a sua mente, os novos problemas ficarão afastados!

Claro que quando você chegar no local da fuga – o bom são destinos ermos, sem meios de comunicação – problemas novinhos em folha estarão lá esperando por você. Você pode pegar bicho do pé. Torcer o pulso numa atividade lúdica. Cair de amores por um caiçara. Ou não cair de amores por ninguém. Por outro lado, os novos problemas que surgirão no seu habitat natural não vão surtir efeito em você, porque ninguém vai conseguir te avisar. E estes é que são os piores problemas. Um bicho do pé não é nada comparado a você descobrir que foi enganada pelo seu contador e que deve R$ 50 mil ao fisco. Ou R$ 500. Um bicho do pé é ótimo! Ele pode até te fazer companhia, conversar sobre a novela, fazer um cafuné.
Então, para fugir bem de um problema, você deve fazer que nem eu: pegue um táxi, um avião, outro táxi, um catamarã, um jipe, um barco, um trator. Sim, enquanto vocês lêem estas linhas, estarei em algum momento desta travessia. É verdade, não estou roubando na conta. Pronto, você conseguiu chegar num lugar muito muito muito longe. Sim, você é neurótica e levou o celular. Mas o único jeito dele pegar é você ficar andando com ele pela beira da praia tentando conseguir um tracinho. Vocês sabem o que eu estou falando. Claro que você vai passar a semana inteira com comichão, perguntando para pescadores onde tem um cyber-café.
Não ter um cyber-café já é um problema em si. Aí você vai ficar com este comichão pensando “ai, minha nossa senhora, será que tem algum problema novo que eu não tô sabendo?”. Sim, porque embora odiemos nossos problemas, somos viciadas neles. Então, depois de não conseguir nenhum tracinho, você provavelmente irá fretar um trator e ficar andando pelo areal até conseguir um cyber-café. Aí vai abrir seu email e descobrir um problema novo. Soma-se a isso, claro, o bicho do pé e o pulso luxado. Aí você vai voltar deprimida no trator, pensando no novo problema, e pensando que o motorista do trator não está a fim de você. Ó vida, ó azar.
Pensando bem, acho que desistir de viajar!!
PS: Tudo isso se você for mulher. Se você for homem vai ficar na beira do mar curtindo a vida."


Jô Hallack

Garfield


Jim Davis

Mulher de 30


Cibele Santos

Frases Soltas


Caio Fernando de Abreu

Como agir no meio de um mar de lama


"Se você tiver dinheiro e tempo para viajar,suma. Se você não tiver dinheiro nem coragem para viajar, suma. A cama é um lugar quente. Quando você tiver vontade de viajar mas não tiver tempo, viaje por um dia com os seus amigos. E não precisa ser para um lugar para onde você precise pegar estrada. Viaje na maionese mesmo. Invente histórias e surte.Se no meio da sua viagem você der de cara com pessoas que te lembrem que você está envolvida em um mar de lama, tome um táxi e volte para casa. Trilha sonora para ouvir no táxi, se você tiver um i pod, The world is full of crashing bores, do Morrisey. Tradução livre: o mundo está cheio de babacas perigosos.Pensamento para ter na cabeça: até o mar da lama passa. Quando você não acreditar que o mar de lama passa: rua, amigos, rua, amigos. E não venha com essa de que lama faz bem para a pele. Faz nada! Mar de lama não faz bem para nada. Sim, às vezes a vida é cruel.

O que falar em público que tenha a ver com a rede de fofocas: nada. Absolutamente nada.O que falar em casa sozinha que tenha a ver com o mar de fofocas . Nada. Absolutamente nada. As paredes têm ouvidos.O que fazer se você achar que está virando um ser paranóico: Nada. Absolutamente nada. Talvez um pouco de paranóia caia bem numa mente tão bobinha. Não se ofenda por ser bobinha, se você não fosse bobinha não estaria envolvida em um mar de lama. Em quem confiar quando você está envolvida em um mar de lama: quatro amigos, uma analista e dois gatos de estimação.
Que recordação guardar de um mar de fofocas: nenhuma. Absolutamente nenhuma. Mas como você não vai conseguir esquecer tudo, que não seja nenhum trauma. Nenhum trauma grave que te faça, por exemplo, perder a inspiração (e a necessidade)de escrever."


Nina Lemos

Como ser enterrada viva

"Este método tem como objetivo ser um guia prático para aquelas pessoas que desejam viver no limbo. Tudo que você tem a fazer é seguir as instruções, mas também não precisa se esforçar muito, pois a a vida vai dar conta do resto:

1 - Sobre o limbo: ao contrário do que foi apregoado, o limbo não é um lugar ruim. É apenas um estado mental onde nada acontece. Mas em que você pode se divertir, ainda assim. Você pode ver filmes, programas, organizar lanches e uma série de atividades lúdicas.
2 - O primeiro passo rumo ao limbo: a primeira coisa a fazer é cortar o laço com a humanidade. Isso não é tão simples assim, pois a humanidade é intrujona e persegue você. Então, pare de checar os recados da secretária eletrônica. Em seguida, tudo que você tem a fazer é esquecer o celular em casa. O próximo passado é ser tomada pelo "medo dos recados". Sem motivo algum, você começa a achar que é melhor não ver quem ligou. Pode ser perigoso. Sabe-se lá quem é. O "medo dos recados", muitas vezes, entra em confronto com outro sentimento: o da culpa de ter perdido algum recado realmente importante, como o de uma pessoa do seu trabalho. Quando a culpa é maior que o medo, você volta a checar os recados. No último embate, consegui atingir a marca de oito recados na secretária eletrônica. Meu recorde é 12.
3 - As pessoas portais: elas existem e são espécies de criaturas que conseguem revelar os atalhos na nossa jornada. É muito fácil reconhecer pessoas portais. O "amigo da videolocadora", por exemplo. Quando seu grau de intimidade com o rapaz do vídeo extrapola da normalidade. Ou então freiras. Se você conseguiu ficar amiga de uma freira no meio da rua, pode ter certeza: ela é uma pessoa pormal. Quanto mais anônimos você pega amizade, pode ter certeza: você está se aproximando do limbo.
4 - A vontade descontrolada de se dedicar a desafios inúteis. Este é outro sintoma da proximidade do limbo. Você começa a ter prazer nas atividades mais bizarras. Por exemplo, sua irmã comprou um dvd de marca obscura e não consegue destravá-lo para "região 1". Você é tomada por uma vontade louca de ajudá-la e passa a madrugada fazendo buscas em fóruns de nerds até conseguir a resposta. Os desafios inúteis podem ser também palavras cruzadas ou aquele novo passatempo de números incrível.
5 - O próximo passo é jogar terra em cima de você. E esperar que tudo passe!"

Jô Hallack

Como tentar curar ressaca moral

- Durma. Não inventaram nada melhor. Inclusive, todas as drogas e calmantes, no fundo, foram feitas para colocar você para dormir.

- Se você estiver sem sono, apele. Filme ruim. Livro chato. Leite morno. Banho quente. Biografias tijolão. Conversa com a mãe sobre os problemas de família.
- Se apóie na solidariedade dos amigos. Sim, nestas horas eles sempre se lembram que com eles também está tudo péssimo. E contam algo ruim que aconteceu com eles. Geralmente, nunca foi tão ruim. Mas faz parte do médoto você fingir que foi também.
- Não tente se apoiar em pontos positivos fictícios. Às vezes, a vida fica trash. Fazer o que?! Não diga coisas como "a noite foi horrível mas pelo menos meu cabelo com escova progressiva estava um luxo!"
- Tente virar budista. Crente. Macumbeira.
- Nâo tente arrumar um bom acontecimento para superar o evento-trash. Talvez você não consiga.
- Pode ser mais fácil arrumar um novo acontecimento trash para superar o anterior. Isso é mais fácil de conseguir. O problema é que na manhã seguinte você terá um novo problema. Mas isso é outro problema....

Jô Hallack

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Garfield


Jim Davis

Mulher de 30


Cibele Santos

Frases Soltas



Caio Fernando de Abreu

Um amor tão bom

"Casados eles não pareciam ser - não um com o outro -, e aquele jantar cedo, num restaurante modesto, comum, era muito bom de se ver.

Estavam sentados um em frente ao outro, e parecia claro que não iriam para a mesma casa depois do jantar, não dormiriam nem acordariam juntos. Por isso, talvez, tinham tanto a se dizer - e se diziam.
Ela às vezes passava a mão na testa dele, afastando uma mecha de cabelo; daí a pouco ele devolvia o carinho e segurava a mão dela num gesto rápido, isso por cima dos pratos, sem que nada fosse fora de propósito nem inadequado, como nunca são os gestos que saem do coração.
Não havia entre eles aquele clima de urgência que precede a ida a um motel, muito pelo contrário; parecia, isso sim, que eles haviam passado a tarde se amando e depois foram a um restaurante, daqueles em que não há risco de encontrar nenhum amigo, para ficarem juntos um pouco mais, o tempo que ainda tinham, sem inquietação, pelo prazer da companhia um do outro. E os carinhos trocados não eram os da paixão, mas os do amor; de um amor sólido e profundo.
Quem mora junto não conversa tanto, olho no olho, porque sabe que tem tempo pela frente: a noite inteira, talvez o resto da vida. Já eles falavam, e os assuntos não eram esses de namorados; falavam de tudo, interessados um no que o outro dizia, trocavam idéias como se fossem dois grandes amigos, o que é raro entre homem e mulher. Ele talvez falasse de um negócio que estava fazendo, ela talvez de um filho (só dela) com problemas; aí, de repente, um carinho - sem olhares melosos, nada. Apenas a necessidade de tocar no outro, só isso. Estavam ali, inteiros, muito próximos e muito seguros.
Ela usava um suéter com um pequeno decote; num determinado momento, ele passou o braço por cima da mesa, botou a mão no ombro dela, escorregou por dentro do suéter pelas costas e ficou uns momentos passando a mão, aquela mão forte de dono, como recordando a tarde que passaram juntos.
Ela não era nem jovem nem linda, nem ele. Eram pessoas absolutamente normais, banais mesmo, daquelas que não chamam a atenção, para quem não se olha duas vezes - talvez nem uma. Mas naquela mesa pequena daquele restaurante banal havia tudo o que uma mulher e um homem podem querer um do outro: confiança, amizade, amor, paixão - mesmo que discreta -, sexo bem resolvido e segurança. Eles iriam se separar daí a pouco, sentiriam falta um do outro, mas sem angústia ou desespero, sabendo que se encontrariam de novo no dia seguinte ou na semana seguinte, confiando no seu próprio desejo e no do outro, porque aquele amor tinha essa coisa tão rara nos amores em geral: era sólido.
Ele pediu a conta, os dois saíram abraçados normalmente; na esquina, ele chamou um táxi para ela, se beijaram rapidamente, ele ficou olhando até o táxi desaparecer, pegou o dele e a noite - eram 9h - acabou por aí.
Acabou é modo de dizer, porque essas noites tão boas não se acabam assim. Ela foi dormir pensando nele, ele pensando nela, e eu pensando neles. Pensando e imaginando quantas pessoas, neste mundo de tantas paixões, vaidades, ansiedades, desvarios, terão tido a sorte de viver um amor assim tão bom.
Não, o amor não é lindo, como se diz banalmente: o amor é muito bonito quando é de verdade, e o deles era."


Danuza Leão

O inferno é ser fodona

"Este site é escrito por três mulheres fodonas. Sabe como é. A gente se vira sozinha, mano. Temos reuniões duras de negócios e colocamos o pau na mesa. Depois choramos, claro. Mas tomamos sozinhas o nosso banho quente e nosso calmante (seja ele qual for) depois e vamos em frente. Sabemos trocar a lâmpada. Tentamos arrumar sozinha nossos computadores. Quando não conseguimos, temos o telefone do homem do suporte e dinheiro para pagá-lo.
Nós, as fodonas, não temos muitos ataques de ciúme, porque já fizemos muitos anos de análise, sabe como é. Por isso, entendemos que o problema dos outros é dos outros. Aprendemos a segurar a nossa onda e sofremos de ciúme um pouco. Sem compartilhar com o objeto do ciúme.
Sim, porque as fodonas descobrem um dia que não é preciso falar tudo para o pretê, que a vida é nossa mesmo e que a gente está sozinha nessas.
A gente é fodona. E fodona chora muito, mas ninguém nem vê, nem precisa ver. Porque quando a gente chora a gente se esconde.
Depois de um ataque de choro na frente de um pretê a fodona decide não chorar mais na frente dele, porque talbez ele não entenda. Fodona sabe que melhor chorar na cama, que é lugar quente.
Fodona compra sozinha o próprio carro. Escolhe sozinha o próprio apartamento, o próprio médico, os amigos.
Fodona tem muitos amigos, mas não é amiga de qualquer um, sabe como é. Fodona geralmente é amiga de fodona. Fodona diz eu te amo para a outra fodona pelo telefone. Porque talvez só elas saibam o quanto é um saco ser fodona.
Principalmente quando o mundo é cheio de não fodonas que conseguem mais atenção e mais carinho.
Ser fodona e compreensiva é uma merda."

Nina Lemos

Receita de Mulher

"As muito feias que me perdoem, mas beleza é fundamental. É preciso que haja qualquer coisa de dança, qualquer coisa de haute couture em tudo isso (ou então que a mulher se socialize elegantemente em azul, como na República Popular Chinesa). Não há meio-termo possível. É preciso que tudo isso seja belo. É preciso que súbito tenha-se a impressão de ver uma garça apenas pousada e que um rosto adquira de vez em quando essa cor só encontrável no terceiro minuto da aurora. É preciso que tudo isso seja sem ser, mas que se reflita e desabroche no olhar dos homens. É preciso, é absolutamente preciso que tudo seja belo e inesperado.

É preciso que umas pálpebras cerradas lembrem um verso de Eluard e que se acaricie nuns braços alguma coisa além da carne: que se os toque como ao âmbar de uma tarde. Ah, deixai-me dizer-vos que é preciso que a mulher que ali está como a corola ante o pássaro seja bela ou tenha pelo menos um rosto que lembre um templo e seja leve como um resto de nuvem: mas que seja uma nuvem com olhos e nádegas. Nádegas é importantíssimo. Olhos, então nem se fala, que olhem com certa maldade inocente. Uma boca fresca (nunca úmida!) é também de extrema pertinência.
É preciso que as extremidades sejam magras; que uns ossos despontem, sobretudo a rótula no cruzar das pernas, e as pontas pélvicas no enlaçar de uma cintura semovente. Gravíssimo é, porém, o problema das saboneteiras: uma mulher sem saboneteiras é como um rio sem pontes. Indispensável que haja uma hipótese de barriguinha, e em seguida a mulher se alteie em cálice, e que seus seios sejam uma expressão greco-romana, mais que gótica ou barroca, e possam iluminar o escuro com uma capacidade mínima de 5 velas. Sobremodo pertinaz é estarem a caveira e a coluna vertebral levemente à mostra; e que exista um grande latifúndio dorsal! Os membros que terminem como hastes, mas bem haja um certo volume de coxas e que elas sejam lisas, lisas como a pétala e cobertas de suavíssima penugem; no entanto, sensível à carícia em sentido contrário.
É aconselhável na axila uma doce relva com aroma próprio apenas sensível (um mínimo de produtos farmacêuticos!). Preferíveis sem dúvida os pescoços longos, de forma que a cabeça dê por vezes a impressão de nada ter a ver com o corpo, e a mulher não lembre flores sem mistério. Pés e mãos devem conter elementos góticos discretos. A pele deve ser fresca nas mãos, nos braços, no dorso e na face, mas que as concavidades e reentrâncias tenham uma temperatura nunca inferior a 37° centígrados, podendo eventualmente provocar queimaduras do 1° grau. Os olhos, que sejam de preferência grandes e de rotação pelo menos tão lenta quanto a da Terra; e que se coloquem sempre para lá de um invisível muro da paixão que é preciso ultrapassar. Que a mulher seja em princípio alta e, caso baixa, que tenha a atitude mental dos altos píncaros.
Ah, que a mulher dê sempre a impressão de que, se se fechar os olhos, ao abri-los ela não mais estará presente com seu sorriso e suas tramas. Que ela surja, não venha; parta, não vá, e que possua uma certa capacidade de emudecer subitamente e nos fazer beber o fel da dúvida.
Oh, sobretudo que ele não perca nunca, não importa em que mundo, não importa em que circunstâncias, a sua infinita volubilidade de pássaro; e que acariciada no fundo de si mesma transforme-se em fera sem perder sua graça de ave; e que exale sempre o impossível perfume; e destile sempre o embriagante mel; e cante sempre o inaudível canto da sua combustão; e não deixe de ser nunca a eterna dançarina do efêmero; e em sua incalculável imperfeição constitua a coisa mais bela e mais perfeita de toda a criação inumerável."

Vinícius de Moraes

Apelo Sexual

"Toda mulher cria seu fetiche: um detalhe pessoal e intransferível que ela adora num homem. Uma atitude que vai diferenciá-la de qualquer estratégia varejista.

Talvez você, macho leitor, só desvendará o segredo pela convivência, e olhe lá, talvez nunca descubra. É um trejeito que executa de modo inocente e que perturba violentamente sua cara-metade, realmente a excita mais do que um beijo e um abraço. Aquilo que é imperdoável para a ex será visto como estimulante para a nova companhia. Não há como repetir ou patentear. Pode ser um tique nervoso, uma manha, uma feição contrariada ao longo do aceno. Ou algo que nem gosta e procura esconder.
Não é uma piscadela ou um beiço consciente, elimine o repertório básico de sedução, diz respeito a uma postura ou um gosto discreto, vadio, que não nasceu para pose.
Juro que não tenho como ajudar, não existe padrão. Muda conforme o histórico escolar da moça.
De repente, é um acessório de sua aparência, não duvido que seja o modo como deixa a camiseta para fora da casa ou sua inclinação à porta no instante de suportar um atraso. O complicado é detectar o atrativo durante o relacionamento. Caso localize, gozará de um poder especial de tirá-la do sério quando quiser e de escapar ileso de uma briga.
Enquanto procura, é uma bomba-relógio instalada em seu corpo. Já foi acionada a contagem regressiva. Trate de iniciar a investigação. Onde está seu apelo sexual? Onde?
Convivi com uma colega que se emociona com cadarço desamarrado e longo. Bem longo. Alucinada pelo tipo que não amarra e pula corda com seus próprios calçados. Arrepia-se diante do fio arrastado; as serpentes no chão; a língua bifurcada antecipando o bico. Não procure compreender, fantasia não se explica, cresce no mistério. Quem usa velcro está imediatamente descartado. Ela escolhe seus parceiros pelos pés. Lamento que perdeu a época do kichute, organizaria um leilão de pretendentes.
Outra amiga baba por motorista que emprega uma única mão para estacionar de ré, girando os dedos como uma enceradeira. Sem direção hidráulica, então, o cara ganha amor eterno. Ela se enxerga dominada pelo movimento. Arrebatada. Confessa que suas pernas tremem, os cabelos deslizam para os seios. Mas não dá mole, entabula regras rígidas de autoescola, cobra baliza no primeiro encontro: não admite que empregue a mão esquerda como apoio. Uma mão! Sonha com o que ele será capaz de aprontar apenas com uma mão.
Uma terceira repara no pulso. Homem graúdo, legítimo, tem que ostentar relógio grande, o pré-histórico cebolão. Considera grave afronta a variação digital, destinada aos analfabetos amorosos. Desdenha também das pulseiras de plástico, endereçadas para as barbies. Caça o ponteiro muito mais do que uma aliança. O relógio é a cabeceira frondosa da cama. Em sua fantasia pontual, o pertence de ferro sugere superdotados incansáveis que perderiam a hora.
Já a minha namorada nutre uma paixão pelos meus ombros. Acho que careceu de exigência ou foi mesmo falta de opção. Eu me envergonho deles, pelos ossos saltados. Não exibo forma de escravo romano, não curto musculação, sou magro, quase um cavalete de quadro. Mas Cínthya passa os dedos com volúpia na pia batismal do pescoço, muda a respiração, engole o sopro de volta num suspiro invertido.
Sua admiração produziu até neologismo. Inventou de chamar meus ombros de pollockianos, uma homenagem a arte de Jackson Pollock.
O que me intriga é que o americano somente fez pintura abstrata."


Fabrício Carpinejar

Mulher Solteira Procura

"Aos 18 anos, o escritor Caio Fernando Abreu escreveu o conto O Príncipe Sapo, que foi publicado na época pela revista Cláudia, e que hoje pode ser lido no seu Ovelhas Negras. É a história de uma mulher que tem 11 irmãs. Todas casam, menos ela. Em 1966, quando Caio escreveu est sensível parábola, o preconceito contra a solteirona era muito forte. Hoje, mais de 30 anos depois, também é,
Olhem bem para aquela garota sentada num bar, moderníssima. Ela quer casar. Mire nos olhos da balconista que acabou de atender você. Também quer. A aeromoça, idem. Sua prima, então, não vê a hora. Sim, elas são independentes, viajam, levam camisinha na bolsa, vão ao teatro, e lêem Camille Paglia. Mas querem casar, pomba!
Não adianta remar contra a maré. Desde que nascemos, fica combinado assim: cresça, estude e case. Depois faça o que bem entender da sua vida. Tudo te empurra para o altar, a começar pelos desenhos animados. Branca de Neve, Cinderela, até o Mogli encontra sua cara-metade. Festa de São João termina em casamento na roça. Desfile de moda termina com vestido de noiva. Novela termina diante do padre. O recado está dado: casou, cumpriu. Se vai ser feliz, são outros quinhentos.
Os homens também tem que seguir a mesma trajetória, mas a cobrança é menor. Não existe um relógio biológico apressando a paternidade e não há tanto preconceito se a solteirice estender-se um pouco além da conta. Símbolo de status, para os homens, é um carro importado, um terno feito sob medida e meia dúzia de cartões de crédito. Para as mulheres, nada disso parece valer grande coisa sem uma aliança no dedo.
Pois bem. Não casou aos 20, não casou aos 30, mas está a fim. O que fazer? Primeira providência: olhar-se no espelho demoradamente. O que você vê? Olhos castanhos, boca miúda, corpo razoável. Nenhuma obra-prima, mas nada que um batom e um decote não resolvam. Avaliação errada. O que os homens podem enxergar em você é um certo olhar de filhote abandonado, uma ansiedade à flor da pele, uma carência afetiva das boas. Olhe no espelho de novo. Por trás da maquiagem, pode haver uma mulher suplicando par que tomem conta dela. Cuidado, eles farejam no ar.
Solteirice indesejada rima com amargura, ironia, baixo astral. É assim que você quer arrasar corações? Homem nenhum quer responsabilizar-se por uma marmanja, ainda mais de mal com a vida. Assuma sua solidão, tire proveito dela, mostre ao mundo que você se basta, mesmo que não tenha certeza disso. Homens querem companheiras, não irmãs mais moças que necessitam de guarda-costas. Se você ficou solteira mais tempo do que desejava, comporte-se como casada, e terá todos os homens a seus pés.
Mulher casada não está nem aí para o estado civil dos outros homens. Mulher casada não avalia "partidos": para ela, todos os homens são interessantes. Mulher casada não fica aflita para que peçam seu número. Mulher casada está pouco ligando para o que os outros pensam a seu respeito. Enfim, a mulher casada é infinitamente mais livre do que a solteira, pois já cumpriu o papel que a sociedade exigiu dela - casou! - e agora tem o resto da vida para ser ela mesma. Ninguém pode ser mais autêntica.
Vamos brincr de manual de auto-ajuda. Em primeiro lugar, aparente ser muito ocupada, mesmo que passe todas as noites comendo doritos em frente à tevê. Mantenha correspondência com alguém misterioso, nem que seja seu irmão que mora em Itapecerica da Serra. Tenha alguns segredos e dê a entender que sua vida sexual deixaria Madonna escandalizada. Entre nos lugares já de olho no relógio, como se estivessem esperando você no outro lado da cidade. Demonstre ser absolutamente indisponível. E volte correndo para casa: seu telefone já começou a tocar.

Martha Medeiros, julho de 1995

Ninguém é o mesmo. Mesmo que se repita


"Quem pensa que está fora do amor entra. Quem pensa que está dentro sai. Ele engana sua força. Sobrepõe a memória dos sentimentos na memória dos fatos. É procurar cabelos para completar as mãos, é procurar o que não se viveu para contar. É esperar o sol aquecer o lado ileso da cama. É não apagar direito a ausência, a letra, o cheiro. É insistir com respostas sem as perguntas. É podar o arbusto de água. É pão ruivo antes do mel. É idioma acumulado nas calhas. Não há descrição fiel que o possa explicar. Adiar o amor ainda é cumpri-lo. Fingir que não se sente é exercê-lo. Desdenhar é elogiar. Ofender é trocar palavras. Odiar é desesperar o atraso. O amor devora os sobreviventes. Não lembra do pente, da navalha, da tesoura de unhas, do jornal, do abajur. O amor não lembra do que precisa. Amor é não precisar de nada. É precisar do que acontece depois do nada, ainda que não aconteça. A fraqueza é força física. O endereço é genealogia. O amor confunde para se chegar ao mistério. Embaralha para não se ouvir. Perde-se no próprio amor a capacidade de amar. Quanto mais violento o primeiro amor, mais difícil será o segundo amor. Quanto mais violento o último amor, mais calmo é o primeiro amor. As frutas postas na mesa não estão à espera da fome, ainda estão à espera da árvore. A fome é uma árvore que cresce deitada e arranca o telhado do corpo. Amor é comer a fruta do chão. O chão da fruta. O amor queima os papéis, os compromissos, os telefones onde havia nomes. O amor não se demora em versos, se demora no assobio do que poderia ser um verso. O amor é uma amizade que não foi compreendida, uma lealdade que foi quebrada; o amor é um desencontro por dentro."



Fabricio Carpinejar

domingo, 18 de abril de 2010

Triz

"Eu quase consegui abraçar alguém semana passada. Por um milésimo de segundo eu fechei os olhos e senti meu peito esvaziado de você. Foi realmente quase. Acho que estou andando pra frente. Ontem ri tanto no jantar, tanto que quase fui feliz de novo. Ouvi uma história muito engraçada sobre uma diretora de criação maluca que fez os funcionários irem trabalhar de pijama. Mas aí lembrei, no meio da minha gargalhada, como eu queria contar essa história para você. E fiquei triste de novo.

Hoje uma pessoa disse que está apaixonada por mim. Quem diria? Alguém gosta de mim. E o mais louco de tudo nem é isso. O mais louco de tudo é que eu também acho que gosto dele. Quase consigo me animar com essa história, mas me animar ou gostar de alguém me lembra você. E fico triste novamente.
Eu achei que quando passasse o tempo, eu achei que quando eu finalmente te visse tão livre, tão forte e tão indiferente, eu achei que quando eu sentisse o fim, eu achei que passaria. Não passa nunca, mas quase passa todos os dias.
Chorar deixou de ser uma necessidade e virou apenas uma iminência. Sofrer deixou de ser algo maior do que eu e passou a ser um pontinho ali, no mesmo lugar, incomodando a cada segundo, me lembrando o tempo todo que aquele pontinho é um resto, um quase não pontinho. Você, que já foi tudo e mais um pouco, é agora um quase. Um quase que não me deixa ser inteira em nada, plena em nada, tranqüila em nada, feliz em nada.
Todos os dias eu quase te ligo, eu quase consigo ser leve e te dizer: “Ei, não quer conhecer minha casa nova?” Eu quase consigo te tratar como nada. Mas aí quase desisto de tudo, quase ignoro tudo, quase consigo, sem nenhuma ansiedade, terminar o dia tendo a certeza de que é só mais um dia com um restinho de quase e que um restinho de quase, uma hora, se Deus quiser, vira nada. Mas não vira nada nunca.
Eu quase consegui te amar exatamente como você era, quase. E é justamente por eu nunca ter sido inteira pra você que meu fim de amor também não consegue ser inteiro.
Eu quase não te amo mais, eu quase não te odeio, eu quase não odeio aquela foto com aquelas garotas, eu quase não morro com a sua presença, eu quase não escrevo esse texto.
O problema é que todo o resto de mim que sobra, tirando o que quase sou, não sei quem é."

Tati Bernardi

Mulher de 30


Cibele Santos

Garfield


Jim Davis